Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." Fernando Pessoa

Eles são duas metades iguais. Metades da mesma laranja. Metades de uma laranja podre. São os dois confusos, atrapalhados e têm uma tendência para estragar tudo de bom que lhes acontece.
A vida fê-los esbarrar um no outro diversas vezes. Mas durante muito tempo não souberam agarrar a oportunidade. É como se soubessem que se iam voltar a encontrar. E seguiam vidas separadas. Ele, com o seu terrível medo de compromissos, passava as noites num qualquer bar. Desfilava com as suas novas conquistas. Conquistas que afastava à medida que elas se envolviam. Não queria emoções. Não queria sentimentos. E rodeado de mulheres, era a pessoa mais solitária do mundo. Ela, após várias desilusões, tinha desacreditado no amor. Queria estar sozinha. Queria e pensava que podia estar sozinha. Claro que também teve a companhia noturna de alguns homens. Afinal, a solidão é muito mais insuportável à noite.
Voltaram a encontrar-se, três anos após a última vez. Falaram, riram, abraçaram-se e beijaram-se. Havia uma espécie de linha que os unia, que os entrelaçava e os obrigava a ficar frente a frente. Não sabiam se era apenas atração ou desejo, mas nunca conseguiam resistir-se. E, como de todas as outras vezes, passaram a noite juntos. Ambos sabiam o que ia acontecer na manhã a seguir. Tomariam o pequeno-almoço juntos e ele ia embora com a promessa perdida de ligar um dia destes. Mas nada disso importava. Tudo aquilo era mais forte do que eles. E que mal tem uma paixão assim?
A manhã veio e com ela a realidade. Ele acordou mais cedo. Olhou-a com ternura e pensou em partir sem despedidas. Mas o corpo não respondia ao pensamento e voltou a abraça-la. Ela teve vontade de abrir os olhos, mas manteve-se imóvel com a esperança que o tempo parasse. Nenhum dos dois se sentia assim com mais ninguém.
- E se desta vez eu ficar para almoçar? – disse ele enquanto bebia o café que ela lhe tinha feito.
- E se ficasses para jantar? – respondeu ela com um sorriso amedrontado.
- E se…e se desta vez eu ficasse para sempre?
Abraçaram-se, beijaram-se, prometeram-se. Talvez agora seja o tempo certo.